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Contos, Lendas e Poesia

Contos, Lendas e Poesia

20
Dez25

O sapateiro e os duendes - conto dos Irmãos Grimm

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Era uma vez um sapateiro que ficou tão pobre, embora a culpa não fosse dele, que por fim só tinha couro para um único par de sapatos. Então, à noite, ele cortou o couro, para fazer os sapatos na manhã seguinte; e, por ter a consciência tranquila, deitou-se calmamente, encomendou-se ao querido Deus e adormeceu.
De manhã cedo, depois de rezar sua oração, ele ia sentar-se para trabalhar quando encontrou o par de sapatos pronto em cima da mesa. Ficou tão admirado que não sabia o que dizer. Pegou os sapatos na mão para examiná-los mais de perto: estavam tão bem-feitos, que nenhum ponto tinha sido dado errado, como se fosse mesmo uma obraprima.
Pouco depois, apareceu um comprador. Gostou tanto dos sapatos que pagou por eles um preço acima do comum. Com esse dinheiro, o sapateiro pôde comprar couro para dois pares de sapatos.
Ele cortou o couro à noite e, cheio de disposição, ia começar a trabalhar de manhã cedinho, mas não foi preciso. Encontrou os sapatos já prontos, e não faltaram compradores que lhe dessem tanto dinheiro, que lhe foi possível comprar couro para quatro pares de sapatos.
De manhã cedo, encontrou esses sapatos também prontos; e assim a coisa continuou. O sapateiro cortava o couro à noite e, de manhã, os sapatos estavam prontos; de modo que sua situação voltou a melhorar e, por fim, ele se tornou um homem rico.
Ora, aconteceu que uma noite, não muito longe do Natal, depois de ter cortado o couro,antes de ir dormir o sapateiro disse à sua mulher:

- Que achas de ficarmos acordados esta noite para ver quem nos ajuda?
A mulher gostou da ideia e acendeu uma luz; depois os dois se esconderam num canto da saleta, atrás das roupas que havia ali penduradas, e prestaram atenção.
Quando deu meia-noite, apareceram dois graciosos homenzinhos nus, que se sentaram diante da mesa do sapateiro, pegaram todo o couro cortado e, com seus dedinhos, começaram a furar, a costurar, a martelar. O sapateiro, maravilhado, não conseguia desviar os olhos. Os homenzinhos não pararam enquanto o trabalho não terminou, com os sapatos prontos em cima da mesa; então eles saíram dali saltitando depressa.
Na manhã seguinte, a mulher disse:
- Os duendes nos tornaram ricos, e nós deveríamos demonstrar a eles nossa gratidão.
Eles andam por aí sem nada no corpo e devem ficar congelados. Sabes o que vou fazer?
Vou costurar para eles uma camisa pequena, casaco, gibão e uma calça pequena, além de um par de meias; podes fazer para eles um par de sapatinhos.
O marido respondeu:
- Gostei muito dessa ideia.
E à noite, quando eles já haviam aprontado tudo, em vez de deixarem em cima da mesa o couro cortado, puseram ali os presentes e depois se esconderam para ver qual seria a reação dos duendes.
À meia-noite, chegaram eles saltitando e já iam começar o trabalho; mas, como não viram nenhum couro cortado e encontraram as pequenas peças de roupa, ficaram primeiro admirados, depois demonstraram grande alegria. Com a maior rapidez, vestiram as roupinhas, alisaram-nas no corpo e cantaram:
“Nós somos rapazes finos e elegantes.
Não seremos sapateiros de hoje em diante!”
E pularam, e dançaram, e saltaram sobre cadeiras e bancos. Por fim, saíram dançando pela porta afora.
Desde então, eles não voltaram, mas para o sapateiro as coisas correram muito bem enquanto viveu, e ele teve sucesso em tudo que resolvia fazer.

01
Abr25

AS TRÊS PERGUNTAS

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“Certa vez, ocorreu a um imperador que, se soubesse responder apenas às seguintes perguntas, nada jamais o afastaria do caminho justo:
- Qual é o melhor momento para qualquer coisa?
- Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?
- Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?
O imperador promulgou um decreto para todo o seu império, anunciando que quem soubesse responder às três perguntas receberia uma grande recompensa. Depois de ler este decreto, muitos se dirigiram ao palácio com as suas diferentes respostas.
Respondendo à primeira pergunta, alguém sugeriu ao imperador que estabelecesse uma ocupação total do tempo, com as horas, dias, meses, anos e as tarefas a realizar. Se seguisse isso à letra, o imperador poderia então vir a fazer cada coisa em seu devido tempo. Uma outra pessoa retorquiu que era impossível prever tudo, que o imperador devia pôr todas as distrações inúteis à parte e manter-se atento a todas as coisas, para saber quando e como agir. Uma outra insistiu que o imperador sozinho não podia possuir a clarividência e a competência necessárias para decidir quando fazer algo. Parecia-lhe que o mais importante era nomear um Conselho de Sábios e agir de acordo com as suas recomendações. Uma outra pessoa disse que certas questões necessitavam de uma decisão imediata e não podiam esperar por uma consulta. Contudo, se o soberano desejasse conhecer com antecedência o que ia acontecer, ser-lhe-ia possível interrogar os adivinhos e os magos.
As respostas à segunda pergunta também divergiram muito entre si. Alguém disse que o imperador devia colocar toda a sua confiança nos seus ministros; um outro recomendou que fosse aos padres e aos monges; outros, ainda, aos médicos e mesmo aos militares.
À terceira pergunta foram dadas respostas igualmente variadas. Alguns afirmaram que a procura mais importante era a ciência, outros insistiram que era a religião e outros, ainda, a arte da guerra. O imperador não ficou satisfeito com nenhuma das repostas e não atribuiu a ninguém a recompensa.
Depois de várias noites de reflexão, o soberano decidiu visitar um eremita que vivia na montanha e que era tido por ser iluminado. O imperador desejava encontrar o santo homem para lhe fazer as três perguntas, mas sabia muito bem que o eremita nunca deixava as montanhas e que era conhecido por não receber senão pessoas pobres e por recusar qualquer contato com ricos e poderosos. Por esta razão, o soberano disfarçou-se como um pobre camponês e ordenou à sua escolta que esperasse por ele aos pés da montanha, enquanto sozinho procurava o eremita.
Ao chegar à morada do homem santo, o imperador avistou-o a cavar o jardim diante da sua cabana. Ao ver o estrangeiro, o eremita saudou-o com a cabeça e continuou a cavar. Era um trabalho aparentemente muito penoso para um velho: ele ofegava ruidosamente a cada vez que enterrava a enxada no solo para revolver a terra. O imperador aproximou-se dele e disse: “Vim pedir a vossa ajuda. São estas as minhas perguntas”:
“Qual é o melhor momento para qualquer coisa?” “Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?” “Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?”
O eremita escutou-o atentamente e retomou o trabalho depois de dar uma pequena palmada no ombro do imperador. O monarca disse então: “Deveis estar cansado. Deixai-me ajudar-vos”.
O velho homem agradeceu-lhe, entregou-lhe a enxada e sentou-se no chão para descansar. Depois de ter cavado duas fileiras, o imperador parou, voltou-se para o eremita e repetiu-lhe as suas três perguntas. De novo, o velho homem não respondeu, mas levantou-se e disse-lhe, mostrando a enxada: “Por que não descansais um pouco? Eu continuo”. Mas o imperador continuou a cavar a terra. Passaram uma e outra hora. Por fim, o sol pôs-se atrás da montanha. O soberano pousou a enxada e disse ao eremita: “Escutai-me, eu vim até aqui para vos perguntar se sabeis responder às minhas três perguntas. Mas se não souberdes, dizei-mo para eu regressar à minha casa”.
O eremita levantou a cabeça e perguntou ao imperador: “Ouvis alguém a correr na nossa direção?”. O imperador virou a cabeça e ambos viram surgir do bosque um homem com uma longa barba branca. Corria tropegamente, com as mãos a pressionar uma ferida no ventre, que sangrava. O homem correu em direção ao soberano até cair sem sentidos no chão. Gemia. Ao abrir a sua camisa, o imperador e o eremita viram que ele tinha uma ferida profunda. O monarca limpou-a totalmente e, a seguir, fez-lhe um curativo com a sua própria camisa. Visto que o sangue corria abundantemente, teve de enxaguar e enfaixar várias vezes a sua camisa até conseguir estancar o sangue da ferida.
Finalmente, o homem ferido retomou a consciência e pediu água. O imperador correu até ao rio e trouxe consigo uma bilha de água fresca. Ao longo de todo este tempo, o sol pusera-se e o frio da noite viera. O eremita ajudou o imperador a levar o homem para a cabana, onde o deitaram sobre a cama. Aí, ele fechou os olhos e adormeceu sossegadamente. O soberano estava esgotado pela longa jornada que fizera, por caminhar na montanha e cavar o jardim. Apoiando-se à porta, adormeceu. Por um momento, esqueceu-se de onde estava e o que ali tinha ido fazer. Quando acordou, olhou para a cama e viu o homem ferido, que também se perguntava o que fazia ali naquela cabana. Quando este viu o imperador, olhou-o atentamente nos olhos e disse num murmúrio dificilmente perceptível: “Por favor, perdoai-me”.
“Mas o que fizestes para merecerdes ser perdoado?”, perguntou o soberano.
“Vossa Majestade não me conhece, mas eu vos conheço. Eu fui vosso inimigo e fiz o voto de me vingar por terdes morto o meu irmão na última guerra e por terdes se apoderado de todos os meus bens. Quando soube que vínheis sozinho a esta montanha para vos encontrardes com o eremita, decidi montar-vos uma cilada e matar-vos. Esperei durante muito tempo, mas vendo que não vínheis, deixei o meu esconderijo para vos procurar. Foi assim que acabei por dar com os soldados da vossa guarda que, ao reconhecerem-me, infligiram-me esta ferida. Felizmente, consegui fugir e correr até aqui. Se não vos tivésseis encontrado, teria, com certeza, morrido na hora. Eu tinha a intenção de vos matar e vós salvastes-me a vida! Sinto uma enorme vergonha, mas também um reconhecimento infinito. Se viver, faço o voto de vos servir até ao meu derradeiro sopro e ordenarei aos meus filhos e aos meus netos que sigam o meu exemplo. Suplico-vos, Majestade, concedei-me o vosso perdão!”.
O imperador encheu-se de alegria ao ver com que facilidade se havia reconciliado com um antigo inimigo. Não apenas o perdoou, mas prometeu também restituir-lhe todos os seus bens e enviar o seu próprio médico e os seus servidores para se ocuparem dele até se curar completamente. Após ter dado ordem à sua escolta de reconduzir o homem a sua casa, o imperador regressou para se encontrar com o eremita. Antes de regressar ao seu palácio, o soberano desejava, por uma última vez, fazer as três perguntas ao velho homem. Encontrou o eremita a semear os grãos nas fileiras cavadas na véspera. O velho homem levantou-se e olhou-o: “Mas já tendes a resposta a essas perguntas”.
“Como assim?”, disse o imperador intrigado. “Ontem, se não tivésseis tido piedade da minha velhice e não me tivésseis ajudado a cavar a terra, teríeis sido atacado por este homem quando regressásseis. Teríeis então lamentado profundamente não terdes ficado comigo. Por consequência, o momento mais importante foi o tempo passado a cavar o jardim, a pessoa mais importante fui eu e a coisa mais importante foi ajudares-me. Mais tarde, depois da chegada do homem ferido, o momento mais importante foi aquele que passastes a tratar da ferida, porque se o não tivésseis feito, ele teria morrido e vós teríeis desperdiçado a ocasião de vos reconciliar com um inimigo. Do mesmo modo, ele foi a pessoa mais importante, e cuidar da ferida foi a tarefa mais importante. Lembrai-vos que não existe senão um único momento importante, que é agora. Este instante presente é o único momento sobre o qual podemos exercer o nosso magistério. A pessoa mais importante é sempre a pessoa com a qual se está, aquela que está diante de vós, porque quem sabe se vireis a estar ocupado com uma outra no futuro? A tarefa mais importante é fazer feliz a pessoa que está ao vosso lado, porque a procura da vida é apenas isso”.

 

Conto de Liev Tolstói

27
Abr23

O último conselho de um sábio

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O discípulo de um filósofo foi procurar seu mestre que estava para morrer e perguntou-lhe:

– Não terias mais alguma coisa a dizer a teu discípulo?

O sábio, então, abriu a boca e ordenou ao jovem que olhasse lá dentro.

– Vês minha língua? – perguntou.

– Claro – respondeu o discípulo.

– E os meus dentes, ainda existem perfeitos?

O discípulo replicou:

– Não...

– E sabes por que a língua sobrevive aos dentes? ... É porque é mole e flexível. Os dentes se acabam e caem primeiro porque são duros. Assim aprendeste tudo o que vale a pena aprender. Nada mais tenho a ensinar-te.

30
Nov22

O sábio e o conselho sobre as águias

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"Havia um rei famoso que vivia cercado de riquezas e honras, mas que em pouco tempo, como tantos outros, descobriu que essas coisas abrem um largo caminho para a bajulação, falsas amizades, porém, nunca para a felicidade.

 

Viajou, percorreu outros reinos e por fim ouviu falar de um velho que conquistara fama e respeito por causa da sua sabedoria e piedade.

 

Preparou-se então para nova viagem, a fim de se encontrar com o sábio ancião.

 

Depois de muito percorrer, achou o velhinho vivendo humildemente numa caverna perto de uma floresta.

 

Esta primeira impressão o chocou profundamente, mas após refazer-se, aproximou-se do sábio, dizendo-lhe com certa submissão: - Respeitoso sábio, vim aprender do senhor o segredo para que eu possa ser feliz. Tenho me enveredado pelo caminho da fama, da riqueza e da superioridade. Entretanto, ao final de cada jornada me convenço de que no meu interior só cresce, e quase assustadoramente, um vazio profundo, incontrolável.

 

O velho, sem dizer palavra, levantou-se pedindo que o acompanhasse.

 

Andaram por trilhas difíceis, até chegarem ao topo de uma pedra altíssima.

 

Ali, uma águia fizera o seu ninho.

 

Apontando então para ele, o sábio indagou do rei: - Por que a águia escolheu esse lugar para fazer o seu ninho, majestade?

 

- Certamente é pelo facto de aqui ela se sentir segura. Sem dúvida, queria estar fora de qualquer ameaça a sua tranqüilidade.

 

- É verdade. Portanto, siga o exemplo da águia. Construa a sua morada nas alturas, dentro de si mesmo com base na espiritualidade, então estará fora de qualquer perigo que possa se constituir numa ameaça a sua felicidade e, sobretudo, encontrará a paz já aqui. Busque Deus... a vida espiritual. Quando puder alcançar isto, então já terá encontrado a felicidade real mesmo aqui na terra. "

17
Out22

Os 6 Sábios Cegos e o Elefante

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parabola_cegos_elefante OS 6 SÁBIOS CEGOS E O ELE

Numa aldeia viviam 6 sábios cegos que todas as pessoas da aldeia recorriam para pedir ajuda e conselhos.

Os 6 sábios cegos eram bastante amigos, mas existia uma certa rivalidade entre eles que os levava a discutir sobre qual dos seis seria o mais sábio.

Certo dia, depois de muito discutirem e não chegarem a nenhum conclusão sobre a verdade da vida, o sexto sábio ficou chateado e decidiu ir viver sozinho para uma montanha perto da aldeia.

– Somos cegos para que possamos ouvir e entender melhor as pessoas e em vez de aconselharem os mais necessitados vocês estão a discutir como se quisessem ganhar uma competição. Não aguento mais! Vou-me embora! – disse o sexto sábio.

No dia seguinte, chegou à aldeia um comerciante montado num elefante. Os sábios nunca tinham tocado num elefante e correram para a rua ao encontro dele.

O primeiro sábio apalpou a barriga do elefante e disse:

– Trata-se de um animal enorme e muito forte. Toco nos seus músculos e nada se move, parecem paredes!

Logo de seguida o segundo sábio ao tocar nas presas do elefante comentou:

– Que palermice! Este animal é pontiagudo como uma lança. É uma verdadeira arma de guerra!

O terceiro sábio ao tocar na tromba do elefante exclamou:

– Estão enganados! Este animal é parecido com uma serpente. Mas não morde, porque não tem dentes na boca!

Posto isto, o quarto sábio ao mexer nas orelhas do elefante comentou:

– Vocês os três estão malucos! Este animal é único e diferente de todos os outros. Os seus movimentos são calmos e o seu corpo parece uma cortina!

Pouco convencido, o quinto sábio toca na cauda do elefante respondeu irritado:

– Vocês os quatro estão completamente doidos! Este animal é parecido com uma rocha que tem uma corda presa no corpo, até me consigo pendurar nela!

E assim ficaram durante horas os 5 sábios cegos a discutir aos gritos.

O sexto sábio lá no cimo da montanha ouvia a discussão e decidiu descer para acalmar os ânimos dos colegas. Após chegar ao local pediu a uma criança que desenhasse no chão a figura do elefante.

Quando o sexto sábio tocou no desenho e sentiu os contornos do elefante percebeu que todos os outros sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. O sexto sábio agradeceu à criança e pediu a atenção dos colegas:

– É assim que os homens se comportam perante a verdade. Agarram apenas numa parte, pensam que é o todo e discutem como tolos!

Autor Desconhecido

02
Abr22

Um belo post de quem sinto saudade.

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SÁBADO, 29 DE JULHO DE 2006

Memórias de outro subconsciente

Não o vi mas certamente que o terei sabido no exacto instante em que ocorria. Encontrava-me então num sítio onde tudo se sente, tudo se sabe e tudo se pode predizer sem que se possa obstar ao que quer que seja mesmo que se queira. O meu subconsciente não o recorda, não obstante esteja certo de que o terá vivido e sofrido, como disse, naquele exacto momento em que ocorria.

Mas só agora, há pouco, me foi lembrado. Soube-o por ela, essa misteriosa “lady” que de mim, naquele porto nevoento e húmido, se despediu e que me disse recordar-se bem de quanto se passara naquele botequim, o que antes narrei.

Contou-me que estava um dia triste, pardacento e frio, igual a tantos outros dias de Inverno no norte das ilhas. A mágoa que sentia pela ausência do seu marinheiro e a que tanto lhe custava habituar-se, toldava-lhe o olhar, tornando baços e como que vidrados os seus olhos lindos. Procurava apressar o tempo com as frequentes idas à falésia, alta e a pique sobre o mar e donde sabia poder avistar as velas brancas que, um dia, muito em breve, enfunadas, lhe trariam aquele que partira. Por lá se quedava, horas a fio, olhando e pensando, pensando e sonhando, sonhos tão imensos como aquele mar sem fim e que duravam até que o sol nele mergulhasse anunciando-lhe mais uma noite sem murmúrios, sem beijos nem carícias! Mas nesse dia, porém, tudo fora diferente…

Havia já várias semanas que partira e próximo julgaria estar o dia do regresso não fora a notícia que seu pai lhe dera e vinha no jornal que tinha consigo: - o galeão fora apanhado pela tempestade ao quinto dia de viagem e naufragara! Nem um só sobrevivente fora encontrado durante as buscas que tinham sido feitas logo que o desastre se tornara conhecido. E o seu nome, como imediato do navio, figurava, logo a seguir ao do comandante, na lista daqueles que em breve voltariam, não pelo seu pé mas sim para serem sepultados na terra em que nasceram.

Enlouquecida, voltara à falésia na vã esperança de divisar as velas e de acordar, assim, daquele terrível pesadelo. Baldada intenção, baldado gesto! Não só era impossível como nem o horizonte se divisava então pois a neblina surda que cobria as ondas não deixava que os seus olhos o pudessem alcançar sequer…

E em baixo, ao fundo, enraivecido e espumando sobre as rochas bicudas que a maré vazante descobrira, o mar como que a convidava a fazer-lhe uma visita garantindo-lhe a passagem para junto daquele cujo regresso aguardava há tanto! Não hesitou na aceitação desse convite e, voando, leve, na sua saia preta e blusa branca, longos cabelos esvoaçando ao vento forte que soprava, olhos cheios de lágrimas mais salgadas do que o próprio mar, coração parado mas que ainda batia, aceitou o convite que o mar lhe fazia e partiu ao seu encontro…

Tal como eu, também ela depois, surpreendida, se deve ter reconhecido no frágil farrapo humano que jazia entre as rochas que o mar cobria e descobria. Não que mo dissesse, mas sei que foi assim. Recolhida a muito custo por todo o povo que lá se deslocou, foi a enterrar primeiro do que o seu marinheiro que tardou um dia mais no seu regresso a casa.

Conheço a “milady” desde sempre e sei que chegámos ambos ao fim das nossas caminhadas. Resta-nos mais uma breve passagem neste mundo – esta - buscando a seguir a eternidade prometida como sonho merecido, sofrido e de há muito acalentado.

A sua condição física de hoje, tal como a minha, é débil, reflectindo, talvez, esta e outras vidas do passado. Grande, enorme, é, porém, a fé e a vontade de tudo superar para vencer esta que sabemos ser a nossa derradeira provação…
 
 
publicado por Júlio Moreno às 21:51
 
 

 

27
Mai21

O Homem e a Mulher – Victor Hugo

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O homem é a mais elevada das criaturas.

A mulher é o mais sublime dos ideais.

Deus fez para o homem um trono;

Para a mulher um altar.

O trono exalta; o altar santifica.

O homem é o cérebro; a mulher o coração, o amor.

A luz fecunda; o amor ressuscita.

O homem é o gênio; a mulher o anjo.

O gênio é imensurável; o anjo indefinível.

A aspiração do homem é a suprema glória;

A aspiração da mulher, a virtude extrema.

A glória traduz grandeza; a virtude traduz divindade.

O homem tem a supremacia; a mulher a preferência.

A supremacia representa força

A preferência representa o direito.

O homem é forte pela razão; a mulher invencível pelas lágrimas.

A razão convence; a lágrima comove.

O homem é capaz de todos os heroísmos;

A mulher de todos os martírios.

O heroísmo enobrece; os martírios sublimam.

O homem é o código; a mulher o evangelho.

O código corrige; o evangelho aperfeiçoa.

O homem é o templo; a mulher, um sacrário.

Ante o templo, nos descobrimos;

Ante o sacrário ajoelhamo-nos.

O homem pensa; a mulher sonha.

Pensar é ter cérebro;

Sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é um oceano; a mulher um lago.

O oceano tem a pérola que embeleza;

O lago tem a poesia que deslumbra.

O homem é a águia que voa; a mulher o rouxinol que canta.

Voar é dominar o espaço; cantar é conquistar a alma.

O homem tem um fanal; a consciência;

A mulher tem uma estrela : a esperança.

O fanal guia, a esperança salva.

Enfim ...

O homem está colocado onde termina a terra;

A mulher onde começa o céu ...

02
Abr21

O Coelho da Páscoa (Conto Russo)

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(Conto russo recontado por Christa Glass)


Era uma vez um pai coelho de Páscoa e uma mãe coelha de Páscoa que tinham sete filhos. Ao aproximar-se a época da Páscoa, eles resolveram testar os coelhinhos para ver qual deles era o verdadeiro “coelho de Páscoa”.

A mãe pegou uma cesta com sete ovos e pediu para que cada filho escolhesse um para esconder.

O mais velho pegou o ovo dourado e saiu correndo por campos e montes até chegar ao portão da escola, mas deu então um salto tão grande e tão apressado que caiu de mau jeito quebrando o ovo. Esse não era o verdadeiro coelho de Páscoa.

O segundo escolheu o ovo prateado e pôs-se a caminho. Ao passar pelos campos encontrou a raposa. Esta queria comer o ovo e pediu-o ao Coelho. Ele não lhe quis dar. A raposa prometeu-lhe então uma moeda de ouro, conseguindo assim que o coelho a seguisse até sua toca. Chegando lá, a raposa escondeu o ovo e, com cara feia, mostrou os dentes como se quisesse comer o assustado coelhinho que saiu correndo o mais que pôde. Esse também não era o coelho de Páscoa.

O terceiro escolheu o ovo vermelho e pôs-se a caminho. Ao atravessar o campo encontrou-se com outro coelho e pensou: “Ainda tenho muito tempo. Vou lutar um pouco com ele”. Os dois coelhos lutaram e rolaram tanto pelo chão que amassaram o ovo. Também esse não era o verdadeiro coelho de Páscoa.

O quarto pegou o ovo verde e pôs-se a caminho. Quando passava pela floresta ouviu o chamado da Pega (1) que, pousada no galho de uma árvore, gritava: “Cuidado! A raposa vem vindo!”. O coelho assustado olhou à sua volta procurando um lugar para esconder o ovo.

- “Dá-me o ovo que eu o esconderei em meu ninho”, disse a Pega. O coelho deu-lhe o ovo mas, percebendo que não havia raposa alguma quis o ovo de volta. A Pega respondeu maldosamente: ”O ovo está muito bem guardado no meu ninho. Vem buscá-lo se quiseres”. Esse também não era o verdadeiro coelho de Páscoa.

O próximo escolheu o ovo cinzento. Quando ia andando pelo caminho chegou a um riacho. Ao passar pela ponte viu-se espelhado nas águas. Ficou tão encantado com sua própria imagem que se descuidou do ovo indo este se espatifar numa pedra. Esse também não era o coelho de Páscoa.

O outro coelhinho escolheu o ovo de chocolate e pôs-se a caminho. Encontrou-se com o esquilo que lhe pediu para dar uma lambida no ovo. - “Mas este ovo é para as crianças”, disse o coelho.

O esquilo insistiu tanto que o coelho deixou que ele desse uma lambida no ovo. O esquilo achou-o tão gostoso que o coelhinho resolveu dar também uma lambidinha. Lambida vai, lambida vem, os dois acabaram comendo o ovo. Esse também não era o coelho de Páscoa.

Chegou então a vez do mais jovem. Ele escolheu o ovo azul. Quando passou pelo campo, veio-lhe ao encontro a raposa, mas o coelho não entrou na conversa dela e continuou o seu caminho. Mais adiante encontrou o outro coelhinho que queria lutar com ele, mas ele não parou. Continuou caminhando até chegar à floresta. Ouviu os gritos da pega - “Cuidado! A raposa vem vindo!”. O coelho não se deixou enganar e continuou seu caminho. Chegou então ao riacho e cuidadosamente atravessou a ponte sem olhar para sua imagem refletida na água. Encontrou-se mais adiante com o esquilo mas não lhe permitiu lamber o ovo, pois este era para as crianças.

Chegou assim até o portão da escola. Deu um salto nem curto nem longo demais, chegando ao outro lado sem danificar o ovo. Procurou um esconderijo adequado no jardim da escola onde guardou cuidadosamente o ovo. Esse era o verdadeiro “Coelho de Páscoa”!

(1) Ave que vive na Europa e que leva objetos cintilantes para seu ninho.

09
Ago19

A História de Julieta, a Santa da Baviera* 

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Vieram e atacaram e queimaram e massacraram e saquearam e desapareceram”, assim foi descrito, por um poeta famoso, um ataque mongol, e também assim poderia ser descrita a passagem do amor pelos corpos de Romeu e Julieta. Não os tornados famosos por Shakespeare, mas os outros, os que chegaram a velhos: os da cidade de Baviera.

Romeu da Baviera era duque; Julieta apenas bela. Como muitas vezes, o poder ajoelhou-se frente à beleza; como sempre, a beleza fingiu resistir, mas logo se rendeu.

Leitor de Heráclito, Romeu, quando queria resumir a sua vida, seguia a máxima do mestre: “Procurei-me a mim mesmo”. Porém, como todos os seguidores, Romeu não se encontrou: copiou.Obcecado pela procura era excessivo na rapidez com que passava pelas coisas. Julieta era bela; ele aproximou-se e “dois animais se entenderam”, isto é, apaixonaram-se, juraram o amor; e no dia seguinte acordaram. Ela embevecida. Ele, com tédio.

Na África Oriental existira uma pequena tribo chamada: “a tribo que aqui está”. Romeu de si próprio dizia precisamente ser apenas “o homem que aqui está”; o que significava medo: da fixação, dos nomes que paralisam os homens; dos ofícios; e ainda das mulheres.Apaixonara-se por Julieta como antes se apaixonara por outras, e como depois se apaixonaria ainda por objetos, coisas, acontecimentos.

Em Julieta foi diferente, as mulheres como os deuses: nunca se cansam do amor.Julieta caiu na armadilha e deixou-se ficar. Nela o amor não passou como um ataque mongol: mentimos no início. Mas ela foi atacada, sim; queimada, sim; massacrada; e saqueada. Por fim, ele, Romeu, desapareceu. Amou-o depois à distância como se ama um duque, enquanto ele rapidamente a esqueceu em mulheres e outras batalhas.

Impiedoso, invadiu países; dizimava metade de um povo para que a outra metade o tornasse célebre. Particularidade: era cruel, mas aprendiz de Heráclito usava o fogo para destruir as cidades. Só o fogo.

“Todas as coisas se trocam pelo fogo e o fogo troca-se por todas; como o ouro se troca pelas mercadorias e as mercadorias pelo ouro”, lembrava-se ele de ter lido nos escritos do sábio. Confundida, assim, a morte com a vida, ele matava como o agricultor semeia. Roubava ouro, deixava-lhes o fogo. Como todas as más cópias, destruía com os instrumentos que o sábio utilizara para construir Romeu da Baviera, o homem que se procurava a si mesmo, ambicioso; pretendente a sábio; seguidor de Heráclito, tornou-se conhecido como o duque do Fogo; o homem que queima até o que já não consegue fugir. Conquistou tantas cidades como ódios. Matou tantos homens quantos os que deixou com vontade de o matar.

Um dia, porém, o mundo mudou: o homem que desce o caminho fácil deve também aprender o difícil, porque num qualquer momento, é certo, precisará dele. Romeu da Baviera não crescera nessa sabedoria capaz de sair do presente: havia gasto já todas as alegrias. Agora era o momento de recordar as palavras do evangelho de São Mateus (24.7): “Haverá fome e terramotos em vários lugares. Mas tudo isto é apenas o começo das dores”. Para Romeu começara, então, o tempo das dores.

Atacado pelo exército do imperador Conrado III, rapidamente perdeu terreno e homens. O resto, em parte, é conhecido. Conta-o Montaigne num dos seus ensaios. Movido pelo ódio, embora ainda não totalmente dominado por ele, o imperador Conrado III, entrando na cidade de Baviera, consentiu em deixar fugir as mulheres. Apenas.

Que elas saíssem da cidade a pé, foi a sua imposição; e que levassem só o que pudessem carregar com os braços. Tudo o que ficasse para trás seria arrasado pelo fogo (essa a sua vingança): incluindo os homens; incluindo Romeu.

A parte que conta Montaigne comove: as mulheres, com a força que só o coração e o desespero conseguem, pegaram em filhos e maridos e carregaram-nos às costas, livrando-os da morte.Montaigne esqueceu-se (não terá visto): quando Romeu, o cruel duque da Baviera, se viu deixado para trás, abandonado por todas as mulheres que ao longo da vida abandonara, teve um instante em que de tudo se arrependeu como acontece a todos os que se vêem frente à morte. De imediato, no entanto, foi surpreendido pela terra, pelas mulheres. Uma mão feminina com rugas: era Julieta. Como nele, trinta anos nela haviam passado. Era agora velha, curvada, fraca. No entanto, carregou-o às costas. Corajosa. Ainda apaixonada.

Montaigne fala de um perdão por parte do imperador, impressionado com a exibição de força e coração das mulheres da Baviera. Sabemos, porém, que não foi bem assim. Deixou fugir todos os homens que as suas mulheres carregaram aos ombros, é verdade, exceto Romeu.

Julieta também ficou.O imperador não era falador, era guerreiro, mas disse:

– Só se pode odiar a mulher que ama o inimigo.

Juntou, assim, os dois, no centro da cidade, amarrados por cordas um ao outro.

Ele próprio, o imperador Conrado III, acendeu o fogo. Dizem que com a mão esquerda, a mão que odeia.

O fim da história é evidente; não era já tempo dos milagres: Romeu e Julieta da Baviera morreram.

Falta descrever, no entanto, um pormenor: diz quem viu que o corpo de Julieta ardeu por completo, ainda o de Romeu permanecia intacto.

Anos mais tarde historiadores interpretaram esse fato como revelador do profundo conhecimento do fogo por parte de Romeu, capaz de o suportar muito mais tempo que o comum dos mortais. Acrescentam a esta interpretação a conclusão: o duque aprendeu com o sábio Heráclito os segredos da matéria.

A interpretação de uma das descendentes de Julieta da Baviera, condessa I. – conhecida como “a que quase trai” – é no entanto bem diferente. Diz ela: foi o último sacrifício de amor por parte de Julieta: mesmo imóvel ofereceu o seu corpo primeiro ao fogo.

Não se sabe qual a verdade. Possivelmente uma combinação das duas versões. Sabe-se sim que o imperador Conrado III, depois de saciado o ódio, procurou fazer justiça.

Assim, ainda hoje, no centro da cidade, provavelmente no mesmo local onde o fogo ofereceu a carne dos antigos amantes a Deus ou ao diabo (ou aos dois), ainda aí, então, permanece a estátua de Santa Julieta da Baviera: a velha; mandada construir pelo imperador Conrado III, no longínquo ano de 900; milênio e meio depois de Heráclito ter pela última vez louvado a guerra e a discórdia (ou de ter sido mal interpretado); e quase um milênio depois de Cristo ter levantado a ingênua hipótese do amor.



*Texto de Gonçalo Tavares reproduzido de seu livro "Histórias Falsas".

19
Jul19

O Sábio e o Pássaro

contoselendas

   Era uma vez, num determinado reino vivia um velho sábio. Ele era o mais sábio dos sábios e nenhuma questão que lhe fosse levada ficava sem solução. Ele sabia tudo de tudo.

   Existia nesse reino um rapaz que não se conformava com isso. Ele não aceitava o fato do sábio conseguir decifrar qualquer enigma, fosse ele qual fosse. Durante muito tempo o plebleu ficou arquitetando uma forma de pregar uma peça no sábio.

   " Tem que existir uma forma de enganar o sábio. Ninguém sabe tudo de tudo "... pensava ele.

   Até que um dia ele descobriu uma forma, a qual nem mesmo o mais sábio dos sábios teria saída.

   "Colocarei em minhas mãos, levemente fechadas, um pequeno pássaro vivo e perguntarei ao sábio se o pássaro está vivo ou morto. Se ele responder que está morto, eu abrirei as mãos e o libertarei para o vôo. Se ele responder que está vivo, eu o apertarei com os dedos e o matarei.

   O sábio não terá saída.

   Assim fez.

   Diante do sábio ele procedeu como acima exposto, perguntando se o pássaro estava vivo ou morto.

   O sábio olhou bem nos olhos do rapaz e respondeu:

   "Meu bom homem, a vida desse pásssaro está em suas mãos ".

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