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Contos, Lendas e Poesia

Contos, Lendas e Poesia

19
Out06

Um Dia a Solidão ...

contoselendas

Um dia, a solidão
- que dor de vergonha! -
levou-me pela mão
para seu baluarte
e disse-me " sonha!
O sonho é a tua lei"

E eu para ali fiquei,
Tão farto de ser eu,
A ouvir o meu coração
Bater em toda a parte,
Nos astros do chão,
Nas pedras do céu.

E eu para ali fiquei
A arrancar a carne das unhas,
Sozinho no meu jardim,
A viver sem testemunhas
No espelho de mim.

E eu para ali fiquei
Com o mundo a obedecer aos meus caprichos:
A luz, as flores, os bichos

E o sol enforcado na floresta,
Na alucinação
Duma corda de lava
A baloiçar ao vento da minha'alma à solta…

E eu para ali fiquei
- pobre de mim que ignorava
a dor da verdadeira solidão
que é esta! Que é esta!…

Muita gente à minha volta
E eu aos tombos pelas ruas,
longe de todos e de mim,
a morrer pelos outros
em barricadas de estrelas e de luas.

 

José Gomes Ferreira

18
Out06

Svetlana

contoselendas

    Desde pequena Svetlana só tinha conhecido uma paixão: dançar e sonhar em ser uma Gran Ballerina do Ballet Bolshoi. Seus pais haviam desistido de lhe exigir empenho em qualquer outra actividade. Os rapazes já haviam se resignado: o coração de Svetlana tinha lugar para somente uma paixão e tudo mais era sacrificado pelo dia em que se tornaria bailarina do Bolshoi.

    Um dia, Svetlana teve sua grande chance. Conseguira uma audiência com Sergei Davidovitch, Ballet Master do Bolshoi, que estava selecionando aspirantes para a Companhia. Dançou como se fosse seu último dia na Terra. Colocou tudo que sentia e que aprendera em cada movimento, como se uma vida inteira pudesse ser contada em um único compasso. Ao final, aproximou-se do Master e lhe perguntou:

    "Então, o senhor acha que eu posso me tornar uma Gran Ballerina?" Na longa viagem de volta a sua aldeia, Svetlana, em meio às lágrimas, imaginou que nunca mais aquele "Não" deixaria de reverberar em sua mente. Meses se passaram até que pudesse novamente calçar uma sapatilha. Ou fazer seu alongamento em frente ao espelho. Dez anos mais tarde Svetlana, já uma estimada professora de ballet, criou coragem de ir à performance anual do Bolshoi em sua região. Sentou-se bem à frente e notou que o Sr. Davidovitch ainda era o Ballet Master. Após o concerto, aproximou-se do cavalheiro e lhe contou o quanto ela queria ter sido bailarina do Bolshoi e quanto doera, anos atrás, ouvir-lhe dizer que não seria capaz.

    - Mas minha filha, eu digo isso a todas as aspirantes - respondeu o Sr. Davidovitch

    - Como o senhor poderia cometer uma injustiça dessas? Eu dediquei toda minha vida! Todos diziam que eu tinha o dom. Eu poderia ter sido uma Gran Ballerina se não fosse o descaso com que o senhor me avaliou!

    Havia solidariedade e compreensão na voz do Master, mas ele não hesitou ao responder:

    - Perdoe-me, minha filha, mas você nunca poderia ter sido grande o suficiente, se foi capaz de abandonar seu sonho pela opinião de outra pessoa.

18
Out06

Brinquedo

contoselendas

Foi um sonho que eu tive:

Era uma grande estrela de papel,

Um cordel

E um menino de bibe.

 

O menino tinha lançado a estrela

Com ar de quem semeia uma ilusão;

E a estrela ia subindo, azul e amarela,

Presa pelo cordel à sua mão.

 

Mas tão alto subiu

Que deixou de ser estrela de papel.

E o menino ao vê-la assim, sorriu

E cortou-lhe o cordel

 

Miguel Torga  
17
Out06

Viver...

contoselendas

Vida – Morte

Guerra – Paz

Amor – Ódio

Que seria deste mundo sem opostos

Sem contradições

Sem ideias e sonhos

Sem motivos para viver

 

contoselendas

15
Out06

Parece impossível mas sou uma nuvem

contoselendas

            Um grupo de sonhadores, de nariz no ar, contempla aquela nuvem – pobre escrava branca de todos os ventos.

             - Parece um cavalo de batalha – diz um.

            - Qual! – protesta outro. – A mim dá-me a impressão duma cabeça de romano. Só lhe falta falar latim.

            Uma rapariga franze os lábios no desacordo lento de ruminar em voz alta:

            - Cabeça de romano, não… Deixa-me examinar bem… Ah! Já sei! É uma ave… isso mesmo: um cisne. Lá está o pescoço. E as asas. Que elegância! Não vêem?

            - Qual cisne, qual carapuça – acode outro. – A mim parece-me um anjo vaporoso, leve, ténue de asas suspensas…

            Cada qual aspira reduzir a nuvem ao tamanho dos seus olhos. Este descobre nela um elefante; aquele, um camelo no Deserto das Areias Azuis; estoutro, um templo chinês…

            Só eu num dia seco de imaginação continuo a ver apenas a nuvem. Mas para não fazer má figura, quando chega a minha vez de opinar, opto resolutamente pelo hipopótamo:

            - É tal qual um hipopótamo.

            Riam-se muito e eu aproveito o alarido para pôr em prática a minha técnica de viver duas vezes ao mesmo tempo – espécie de Elixir de Longa Vida que já me permitiu gozar, pelo menos, setenta anos de sol.

            Pela primeira vez, ato certas observações desligadas na aparência …acabo por descobrir esta verdade, …: Eu também sou uma nuvem

            …a minha qualidade de nuvem resulta apenas dessa ausência de opinião una e indivisível a meu respeito.

            Ninguém me vê do mesmo modo. Como a nuvem no céu – para alguns sou águia; para muitos, burro; para este, um camelo; e para quase todos um animal indefinido.

            A única divergência entre mim e a nuvem é que o pobre farrapo de vapor de água desliza pelo céu desprendido e alheio à opinião dos olhos dos homens…Mas eu não. Eu colaboro.

            Sou sempre o que eles querem: bom, mau, epiléptico, filósofo, integro, devasso, pianista, sonâmbulo, tudo…

            Só nunca fui uma coisa: eu próprio.

            Mas esse é um dos meus segredos que hei-de levar para a sepultura.

            Entretanto por fora continuo a teimar:

            - É um hipopótamo, já disse!

 

José Gomes Ferreira in “ O Mundo dos Outros” pequeno extracto de: “Parece impossível mas sou uma nuvem”

13
Out06

The Sound of Silence

contoselendas

Hello darkness, my old friend,

I've come to talk with you again,

Because a vision softly creeping,

Left its seeds while i was sleeping,

And the vision that was planted in my brain

Still remains

Within the sound of silence.

 

In restless dreams i walked alone

Narrow streets of cobblestone,

'neath the halo of a street lamp,

I turned my collar to the cold and damp

When my eyes were stabbed by the flash of a neon light

That split the night

And touched the sound of silence.

 

And in the naked light i saw

Ten thousand people, maybe more.

People talking without speaking,

People hearing without listening,

People writing songs that voices never share

And no one dare

Disturb the sound of silence.

 

'fools' said i, 'you do not know

Silence like a cancer grows.

Hear my words that i might teach you,

Take my arms that i might reach to you.'

But my words like silent as raindrops fell,

And echoed

In the wells of silence

 

And the people bowed and prayed

To the neon god they made.

And the sign flashed out its warning,

And the words that it was forming.

And the sign said, 'the words of the prophets

 

Are written on the subway walls

And tenement halls.'

Whispered in the sound of silence

 

Paul Simon & Art Garfunkel

 

Feliz Aniversário Paul Simon

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