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Contos, Lendas e Poesia

Contos, Lendas e Poesia

09
Ago19

A História de Julieta, a Santa da Baviera* 

contoselendas


Vieram e atacaram e queimaram e massacraram e saquearam e desapareceram”, assim foi descrito, por um poeta famoso, um ataque mongol, e também assim poderia ser descrita a passagem do amor pelos corpos de Romeu e Julieta. Não os tornados famosos por Shakespeare, mas os outros, os que chegaram a velhos: os da cidade de Baviera.

Romeu da Baviera era duque; Julieta apenas bela. Como muitas vezes, o poder ajoelhou-se frente à beleza; como sempre, a beleza fingiu resistir, mas logo se rendeu.

Leitor de Heráclito, Romeu, quando queria resumir a sua vida, seguia a máxima do mestre: “Procurei-me a mim mesmo”. Porém, como todos os seguidores, Romeu não se encontrou: copiou.Obcecado pela procura era excessivo na rapidez com que passava pelas coisas. Julieta era bela; ele aproximou-se e “dois animais se entenderam”, isto é, apaixonaram-se, juraram o amor; e no dia seguinte acordaram. Ela embevecida. Ele, com tédio.

Na África Oriental existira uma pequena tribo chamada: “a tribo que aqui está”. Romeu de si próprio dizia precisamente ser apenas “o homem que aqui está”; o que significava medo: da fixação, dos nomes que paralisam os homens; dos ofícios; e ainda das mulheres.Apaixonara-se por Julieta como antes se apaixonara por outras, e como depois se apaixonaria ainda por objetos, coisas, acontecimentos.

Em Julieta foi diferente, as mulheres como os deuses: nunca se cansam do amor.Julieta caiu na armadilha e deixou-se ficar. Nela o amor não passou como um ataque mongol: mentimos no início. Mas ela foi atacada, sim; queimada, sim; massacrada; e saqueada. Por fim, ele, Romeu, desapareceu. Amou-o depois à distância como se ama um duque, enquanto ele rapidamente a esqueceu em mulheres e outras batalhas.

Impiedoso, invadiu países; dizimava metade de um povo para que a outra metade o tornasse célebre. Particularidade: era cruel, mas aprendiz de Heráclito usava o fogo para destruir as cidades. Só o fogo.

“Todas as coisas se trocam pelo fogo e o fogo troca-se por todas; como o ouro se troca pelas mercadorias e as mercadorias pelo ouro”, lembrava-se ele de ter lido nos escritos do sábio. Confundida, assim, a morte com a vida, ele matava como o agricultor semeia. Roubava ouro, deixava-lhes o fogo. Como todas as más cópias, destruía com os instrumentos que o sábio utilizara para construir Romeu da Baviera, o homem que se procurava a si mesmo, ambicioso; pretendente a sábio; seguidor de Heráclito, tornou-se conhecido como o duque do Fogo; o homem que queima até o que já não consegue fugir. Conquistou tantas cidades como ódios. Matou tantos homens quantos os que deixou com vontade de o matar.

Um dia, porém, o mundo mudou: o homem que desce o caminho fácil deve também aprender o difícil, porque num qualquer momento, é certo, precisará dele. Romeu da Baviera não crescera nessa sabedoria capaz de sair do presente: havia gasto já todas as alegrias. Agora era o momento de recordar as palavras do evangelho de São Mateus (24.7): “Haverá fome e terramotos em vários lugares. Mas tudo isto é apenas o começo das dores”. Para Romeu começara, então, o tempo das dores.

Atacado pelo exército do imperador Conrado III, rapidamente perdeu terreno e homens. O resto, em parte, é conhecido. Conta-o Montaigne num dos seus ensaios. Movido pelo ódio, embora ainda não totalmente dominado por ele, o imperador Conrado III, entrando na cidade de Baviera, consentiu em deixar fugir as mulheres. Apenas.

Que elas saíssem da cidade a pé, foi a sua imposição; e que levassem só o que pudessem carregar com os braços. Tudo o que ficasse para trás seria arrasado pelo fogo (essa a sua vingança): incluindo os homens; incluindo Romeu.

A parte que conta Montaigne comove: as mulheres, com a força que só o coração e o desespero conseguem, pegaram em filhos e maridos e carregaram-nos às costas, livrando-os da morte.Montaigne esqueceu-se (não terá visto): quando Romeu, o cruel duque da Baviera, se viu deixado para trás, abandonado por todas as mulheres que ao longo da vida abandonara, teve um instante em que de tudo se arrependeu como acontece a todos os que se vêem frente à morte. De imediato, no entanto, foi surpreendido pela terra, pelas mulheres. Uma mão feminina com rugas: era Julieta. Como nele, trinta anos nela haviam passado. Era agora velha, curvada, fraca. No entanto, carregou-o às costas. Corajosa. Ainda apaixonada.

Montaigne fala de um perdão por parte do imperador, impressionado com a exibição de força e coração das mulheres da Baviera. Sabemos, porém, que não foi bem assim. Deixou fugir todos os homens que as suas mulheres carregaram aos ombros, é verdade, exceto Romeu.

Julieta também ficou.O imperador não era falador, era guerreiro, mas disse:

– Só se pode odiar a mulher que ama o inimigo.

Juntou, assim, os dois, no centro da cidade, amarrados por cordas um ao outro.

Ele próprio, o imperador Conrado III, acendeu o fogo. Dizem que com a mão esquerda, a mão que odeia.

O fim da história é evidente; não era já tempo dos milagres: Romeu e Julieta da Baviera morreram.

Falta descrever, no entanto, um pormenor: diz quem viu que o corpo de Julieta ardeu por completo, ainda o de Romeu permanecia intacto.

Anos mais tarde historiadores interpretaram esse fato como revelador do profundo conhecimento do fogo por parte de Romeu, capaz de o suportar muito mais tempo que o comum dos mortais. Acrescentam a esta interpretação a conclusão: o duque aprendeu com o sábio Heráclito os segredos da matéria.

A interpretação de uma das descendentes de Julieta da Baviera, condessa I. – conhecida como “a que quase trai” – é no entanto bem diferente. Diz ela: foi o último sacrifício de amor por parte de Julieta: mesmo imóvel ofereceu o seu corpo primeiro ao fogo.

Não se sabe qual a verdade. Possivelmente uma combinação das duas versões. Sabe-se sim que o imperador Conrado III, depois de saciado o ódio, procurou fazer justiça.

Assim, ainda hoje, no centro da cidade, provavelmente no mesmo local onde o fogo ofereceu a carne dos antigos amantes a Deus ou ao diabo (ou aos dois), ainda aí, então, permanece a estátua de Santa Julieta da Baviera: a velha; mandada construir pelo imperador Conrado III, no longínquo ano de 900; milênio e meio depois de Heráclito ter pela última vez louvado a guerra e a discórdia (ou de ter sido mal interpretado); e quase um milênio depois de Cristo ter levantado a ingênua hipótese do amor.



*Texto de Gonçalo Tavares reproduzido de seu livro "Histórias Falsas".

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